Todas as histórias antigas sobre um dilúvio são, no fundo, histórias sobre uma casa. As águas sobem, o mundo conhecido afunda-se, e o que salva os vivos não é uma muralha, nem uma cidade, nem um exército. É uma embarcação feita à mão, com espaço lá dentro.
A arca de Noé é lembrada pela chuva. Mas, relida com atenção, o que impressiona não é a tempestade; é a lista de passageiros. Não levava reis nem tesouros. Levava pares — todas as criaturas que rastejavam sobre a terra, e uma família. Não foi construída para vencer o dilúvio. Foi construída para que quem estivesse lá dentro o pudesse atravessar em conjunto, numa paz que o mundo lá fora tinha perdido.
i.A embarcação
Habituámo-nos a pensar no abrigo como algo que compramos para nós próprios. A arca sugere uma ideia mais antiga: um abrigo define-se pelo número de pessoas que consegue acolher, e pela calma que guarda enquanto o tempo faz o que o tempo faz.
Letícia Klemens regressou a esta história mais do que uma vez. O que lhe ficou não foi o castigo, mas a harmonia — uma casa cheia e improvável, unida na serenidade enquanto tudo o resto se agitava. Quis um lugar assim para a sua família: um sítio onde se chega e, sem se decidir, se pousam os problemas que se trouxeram pela estrada acima. Um lugar de paz, e de abundância.
Um abrigo não se mede pelas paredes, mas por quantos consegue acolher.
ii.A árvore
Antes da casa, havia a árvore. Foi a primeira a erguer-se nestes dezanove hectares, e ninguém sabe dizer quem a plantou — talvez ninguém. Já viu os montes Libombos ficarem verdes e dourados mais vezes do que alguém contou.
Quando a casa principal foi construída, ficou ao lado da árvore e não no seu lugar. É uma decisão pequena que diz muito. Construir bem é começar pelo que já cá estava, e abrir espaço em vez de o limpar. É por isso que a árvore está no nosso emblema. É a residente mais antiga da quinta, e continua a ser ela quem decide onde cai a sombra.
iii.A avó
Há uma segunda razão para o nome, e é a que mais importa. Arca era o nome dado à avó de Letícia — uma mulher que mantinha os braços abertos para toda a família, e que mimava cada um com o único presente que nunca se esgota.
A casa de uma avó é a primeira arca que a maioria de nós conhece. É lá que as regras do mundo lá fora ficam suspensas por um momento; onde há sempre mais uma cadeira, mais um prato, mais uma hora. Não nos lembramos dessas casas pela mobília. Lembramo-nos delas pela sensação de sermos esperados.
iv.A quinta
A Quinta Arca, fundada em 2020, é uma tentativa de manter esse sentimento vivo num lugar, para que possa durar mais do que qualquer um de nós. A casa na Namaacha não é um hotel a fingir que é uma casa. É uma casa que decidiu abrir as portas.
Venha como é. Traga as pessoas que ama, ou venha sozinho e deixe que o silêncio lhe faça companhia. Fique um fim de semana, ou o tempo suficiente para esquecer que dia é hoje. A árvore estará cá quando chegar, e cá quando voltar.
A Quinta Arca é uma família. Seja bem-vindo a fazer parte dela.
Fundada em 2020 por Letícia Klemens · Namaacha, Moçambique

